Olá,
Bom, este é meu primeiro artigo para o blog. Resolvi cria-lo para relatar aos amigos e familiares minhas experiências mais marcantes nos dois anos de MUWCI – The Mahindra United World College of India.
Para quem não conhece, o MUWCI faz parte de uma rede de colégios chamada UWC – United World Colleges. Esta rede compõe um projeto criado logo após a Segunda Guerra Mundial e que visa formar jovens comprometidos com os ideais de paz e convivência harmônica entre os diversos povos do mundo. Quem quiser sabe mais sobre a UWC pode entrar no site da http://www.uwc.org.br/ (em português) ou http://www.uwc.org/ (em inglês).
Mahindra UWC of India
O UWC possui colégios em 14 países e oferece bolsas integrais e parciais para jovens de diversas regiões do mundo. Deste modo, os alunos UWC convivem com pessoas de diferentes culturas. Os interessados em participar devem estar cursando o 1 º ano do ensino médio. As inscrições são realizadas pelo site. Os candidatos tem de se submeter a um processo de seleção composto por 3 etapas – prova de conhecimentos acadêmicos, entrevista e convívio.
Lembro-me bem do dia que divulgaram UWC no meu colégio (Santo Agostinho). Estava na aula de química da Cláudia Cínara quando o Vitor Naghetini, aluno da Noruega, e a Carol, aluna da Índia (que ironia!), entraram na sala para convidar o pessoal para fazer a prova. Na hora todos ficaram muito animados. Acho que se as inscrições fossem naquele dia a sala toda faria, apesar de que a maioria ficou achando que só o pessoal “nerd” conseguiria passar na prova de conhecimentos (bobagem). Depois da aula muita gente foi conversar com a Cláudia (professora) sobre a UWC, e ela deu uma grande força incentivando todos a se inscreverem (inclusive eu).
Até então já tinha ouvido falar da UWC através da Laurinha, irmã do Vitor Naghetini e muito amiga minha. Na 8ª série ele passou na seleção e ela sempre me falava do irmão que estava indo para a Noruega (sem contar no dia que ele viajou e a Laurinha chorou a aula inteira XD). Na hora não prestei muita atenção no que se tratava o projeto, mas quando eles divulgaram na minha sala pensei: esta é minha grande chance!
Se não me engano, eles divulgaram a UWC em julho e as inscrições eram no início de novembro. Esquecido que sou, achei melhor não arriscar: escrevi na minha agenda e coloquei o despertador do celular em vários dias de novembro.
Neste meio tempo, li um pouco sobre a UWC e conversei com meus pais. Meu pai ficou muito animado, já minha mãe, acho que não colocou muita fé não... mas também me apoiou. Em novembro, eu entrava no site do comitê brasileiro todos os dias! Quando as inscrições online foram abertas, me inscrevi no mesmo dia e no outro já estava enviando para São Paulo a autorização do meu pai e mãe e o comprovante de pagamento da taxa de inscrição.
Eu estava de férias quando foi divulgada no site a lista de inscritos para a prova. Acho que foi ai que “a ficha caiu” mesmo: eu já estava no processo de seleção! Peguei a matéria da prova escrita. Ela era enorme e bem vaga. Minha tia Aparecida, que é professora de geografia, me ajudou a direcionar um pouco os estudos e me emprestou alguns (muitos) livros. Em férias, na cidade que meu pai mora (Ponte Nova), passei uma semana estudando pra prova (queria muito passar!). Acho que nunca havia estudado com tanto empenho na minha vida inteira – e foi difícil: todo mundo curtindo as férias e eu estudando. De volta a BH e às aulas, passei a ler todos os jornais e revistas que via pela frente!
Poucos dias antes da prova, eu, a Laurinha Naghetini e a Alessandra fomos estudar na Biblioteca Estadual. Elas eram as pessoas que eu mais estava torcendo para que passassem! Sabia que as duas tinham muito potencial e eram fortes candidatas. Não que nosso estudo tivesse sido eficiente, mas a tarde foi muito positiva. Ficamos um tempo na biblioteca, até que praticamente nos expulsaram porque estávamos conversando. Depois de bater um papo com Fernando Sabino e com o Carlos Drummond de Andrade na Praça da Liberdade, fomos para o Xodó onde estudamos mais um pouco e compartilhamos do sonho UWC. Acho que nunca vou esquecer desta tarde... voltei pra casa ciente de que era nosso destino que estava em jogo.
Laurinha, eu e a Alessandra
A prova aconteceu na UFMG. Quando cheguei lá fiquei um pouco assustado. Tinha muita gente, uma sala cheia! O pessoal da minha escola estava reunido num canto, antes da prova começar. Deviam ser umas 15 pessoas de lá. Ficamos conversamos um pouco. Até uma explicação da Crise Mundial em 5 minutos me pediram que eu desse. Quando recebi a prova respirei fundo e pensei: é a agora ou nunca!
Achei a prova fechada bem difícil. Principalmente a parte de matemática, lógica e português (ou seja, só a de conhecimentos gerais estava fácil). Saímos para o almoço (ainda teríamos a parte aberta da prova). Vi que todos tinham achado a prova difícil, então me tranqüilizei um pouco. Almoçamos no Mc Donald’s: eu, a Laurinha, o Rod, a Clara e o Voltaire (que tinha vindo do interior para fazer a prova). De volta à UFMG, rimos bastante com a Olívia (uma figura). Agora eu estava um pouco mais tranqüilo. O tema da redação me chamou bastante a atenção, o que ajudou muito.
Os meses que antecederam a divulgação do resultado pra prova, acreditem, foram os mais angustiantes da minha vida! A lista de selecionados para a entrevista saiu com uns três (longos) dias de atraso. No dia, cheguei da escola e liguei o computador. Minha mãe e irmã (Camila) estavam do lado. Quando vi escrito: “Já está divulgada a lista de candidatos selecionados para a entrevista”, quase tive um infarto. Abri a página, mas não encontrava meu nome (e olha que era um dos primeiros – afinal letra B). Foi minha mãe quem viu meu nome e disse: “é, não vai ter jeito... você vai mesmo Breno!”. Sai, literalmente, pulando de alegria. Ainda eufórico, voltei na lista e procurei o nome da Alessandra e da Laurinha. Infelizmente a Lê não tinha passado (ela não teve tempo de passar todo o gabarito no dia da prova – muita sacanagem), mas o nome da Laura estava lá. Liguei pra ela na hora. Ela estava no meio de uma conversa pesada então só falei: “parabéns Laurinha, passamos na prova”. Ela ficou muito feliz (queria ter visto a cara dela quando soube!). Sai ligando para todo mundo: meu pai, tios e tias, amigos e todo mundo que lembrei na hora.
A entrevista não demorou muito para acontecer. Estava bem mais tranqüilo para essa etapa, afinal os selecionadores estavam em busca de um perfil compatível com a UWC. Ou eu o possuía, ou não. Não dependia muito de mim.
No dia antes passei a tarde inteira lendo alguns livros de filosofia que gosto bastante (do Nietzsche, claro) e ouvindo músicas: de Legião Urbana à Beethoven. A entrevista aconteceu em um sábado de manha, também na UFMG. Fui o primeiro a ser entrevistado. Quando cheguei no prédio ainda não tinha ninguém, e o porteiro não estava sabendo que haveriam as entrevistas. Fiquei andando pelo prédio para ver se não encontrava algum vestígio de UWC. Nada. Fiquei, então, na portaria. Minha entrevista já deveria ter começado e eu estava ficando nervoso... até que a Juliana apareceu na portaria (que alívio). Fomos para a sala de entrevista.
Saí da UFMG sem ter idéia se tinha ido bem ou não (realmente não dá pra saber). Agora era esperar (essa é uma palavra angustiante para qualquer candidato UWC). A expectativa era grande...
Em um domingo, cheguei de viagem e fui direto para o computador para ver se havia saído algo no site. Ainda não tinha nada! Entrei na comunidade da UWC no Orkut e alguém havia postado dizendo que já tinham ligado para ela convidando-a para o convívio. Foi o suficiente para me desesperar. Corri na secretária eletrônica e nada! Liguei para a Laurinha e também não haviam ligado pra ela. Foi quando o telefone tocou. Atendi tremendo... era da UWC. Estavam me convidando para o convívio.
O convívio aconteceu uma semana depois do convite. Assim que soube que eu era um dos selecionados para a terceira etapa liguei para todos novamente, assim como da primeira vez. Estava muito feliz. Só fiquei (muito) triste porque a Laurinha não tinha passado. Eu achava que ela merecia muito!!
Meu pai decidiu ir comigo até São Paulo, onde ocorreu o convívio. Durante a viagem refleti bastante, afinal meu futuro seria decido naqueles próximos três dias. Ninguém sabia o que aconteceria no convívio, o que gerava uma insegurança muito boa. Chegando em São Paulo fomos muito bem recebidos na casa de um amigo de meu pai, Ricardo. O irmão dele, Lavinho, foi quem me levou até o ponto de saída para o convívio. O percurso de ida foi bem engraçado... deu para descontrair bastante e afastar um pouco da ansiedade.
O encontro foi em um colégio no Alto dos Pinheiros. Antes da saída ocorreu uma palestra para os pais (nada que os candidatos não soubessem, afinal todos já estavam sabendo tudo sobre a UWC). Alguns ex-alunos relataram suas experiências em colégios UWC, o que só aumentou ainda mais a vontade de passar!
Fomos para uma fazenda próxima a Itu, onde foi realizado o convivo. A fazenda era bem legal. Os responsáveis era um simpático casal de alemães. Lembro-me do dia que o senhor (nossa, não consigo lembrar o nome, só sei que o sobrenome era Friedrich) veio conversar comigo e perguntou: “você fala inglês?”. “um pouco”, respondi. “So, let’s talk in english”, me disse. Ficamos uns 15 minutos conversando em inglês sobre várias coisas: a Alemanha, filosofia, política, economia! Foi muito interessante.
O convívio é um momento marcante para todos. Acreditem! Acho que, assim como eu, o pessoal saiu de lá com a idéia de que, mesmo que não passasse, a caminhada até lá já tinha valido muito a pena. É, realmente, uma experiência única de reflexão e auto-conhecimento. Acredito que seria ótimo se todos pudessem ter uma experiência assim...
Convívio
Esperar o resultado final foi o momento mais delicado do processo. Você começa a repensar cada ação, observar aquelas mais rotineiras... e isso gera um medo, afinal o que era até então um sonho nunca esteve tão próximo de se tornar realidade. E isto é realmente angustiante. Muitas vezes ama-se mais o sentimento de desejar, do que o objeto desejado, já dizia o filósofo. Daí vem o medo, principalmente se ele estiver certo...
O resultado saiu, pelo menos para mim, em uma terça-feira. No dia anterior eu havia feito provas de química e espanhol, e tinha ido muito mal! Isso aumentava ainda mais o eterno sentimento de “e se eu não passar?”. Na terça fui para o cursinho de inglês (vale lembrar que nesse período só conseguia pensar no resultado) e quando estava voltando para casa encontrei a Laurinha meio perdida no caminho. Conversamos um pouco (sobre a UWC, claro). Isto ajudava a me acalmar... Quando cheguei em casa, não demorou muito para o telefone tocar. Atendi, desprevenidamente, e era a Carla, uma das selecionados que estava no convívio. Veio então o tão esperado resultado.......... eu iria para a Índia!!! Não pude me conter de alegria. Alem de ter passado na UWC, eu iria para o país que era minha terceira opção de escolha!
Vivi e eu
Desta vez era definitivo. Dei a notícia para todos que lembrei na hora. A primeira pessoa que liguei foi Vivi (que angustia) ... vai fazer muita falta viu...
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
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